Retalhos de pensar

Amostra de momentos essencialmente centrados no pensamento, sem enfoque no molde, descaracterizados, desprovidos portanto de pretensão artística no sentido mais literário da palavra. Vem assim permitir abranger um conjunto de notas/textos de um passado já distante, alguns dos quais eventualmente de algum interesse para alguma pessoa. Não se lhes cinge porém no seu pretexto de exposição, aberto à actualização por textos recentes cujo âmbito se insira de alguma forma no supracitado.

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Localização: Lisbon, Portugal

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

E a morte que não vem...

De 3 de Maio de 2001, esta semi-formalização dos sentimentos do Fatalista e do Pária que me são inerentes.

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A consciência de si mesmo é independente das condições externas: embora possa advir delas, não as influencia. Sim senhor, eu consigo ver a vida pelos meus olhos, é certo que conheço muitos limites, e sei que o infinito do meu mundo se torna finito com o meu próprio fim, mais precisamente, torna-se nulo.
Eu penso conseguir pensar nas coisas que me irão desligar o pensamento e adivinhar aproximadamente a minha mediocricidade que lhes está adjacente. Lógico que, seguindo a mais simples e linear ligação de pensamentos, isso me faz concluir que devo viver, enquanto sobrevivente.
Tudo isto é-me mais que claro e a simplicidade destes factos já me levou a tentar consumá-los, já me tornou sedento de viver perante o estado vegetal anterior à minha auto-consciencialização, procurar passar da inércia à natural e irreflectida actividade! Contudo, é-me invariavelmente obstruída a passagem: quanto mais tento, mais falho, e, consequentemente, mais me falta a vontade de ultrapassar as barreiras para curtir ao máximo a descida pelo grande, fatal Abismo existencial.
E o pior é que quanto mais me falta a vontade, mais me reconheço perdido, mais que sou a própria catábase, psicologicamente (e apenas isso) personificada. E quanto mais desço, mais urge a necessidade de viver, e menor é a capacidade de o fazer.
Fixe... sei quem sou, e também o que sou: matéria a apodrecer, prestes a desfazer-se e a levar-me com ela, para o vazio, que não é nem longe, nem perto; sei que não vou fazer jamais aquilo que infelizmente não faço estes dias, e sei que, quando até a minha presença se evaporar, eu nem isto saberei. Nada mau, saber aquilo que a Igreja não sabe... deter o conhecimento de que milhões e milhões de fiéis laquejam, iludindo-se... E daí?? Quem me dera acreditar, quem me dera voltar a ser cristão, arrancar a noção da morte que há em mim da minha mente, tendo-a simplesmente reservada para o final. Não porque me alegre especialmente concordar, e, pior ainda, obedecer cegamente a um deus fictício, somente para anestesiar a dor de o saber, e de saber que de nada me serve sabê-lo.
Invejo ainda especialmente aqueles que o sabem e que conseguem viver em função de o saber, os autênticos epicuristas, que me parecem também bastante fictícios quando os comparo à minha fraca e débil realidade.
Como me falta toda essa postura, e como sei demais para ser cristão, sobra-me arranjar alguma coisa com que me entreter, vendo tudo a passar e sabendo que cada segundo que passa é como que um quilo a menos na minha alma para fazer a diferença do vácuo total e absoluto, sem razão, sentimento, ou nem mesmo sono consolador.
Plenamente de acordo com as críticas que um campónio possa dirigir ao rico e estático cidadão, assumo-me como estou: pré-digerido e doente, muito doente, febril e irremediavelmente doente. Mais ainda, em alturas de introspecção, atormentam-me os restos de vivência convulsivos no meu raquítico estômago, sem alimento desde que, ao crescer, esmaguei as débeis ilusões que a própria infância, impossível de ser contentada, me proporcionava. Enquanto criança, não acreditando no Pai Natal, fingia que sim, e recebia sempre prendas. Os sonhos eram todo o meu eu, e bastavam, pois que somos nós ao princípio, senão sonhos? Só que agora tenho sonhos por demais concretos para que me satisfaçam, e morro de fome, e apetece-me morrer de outras coisas que não de fome.
É por isso que eu admito, em último caso, a planeada fuga desta tormenta. Espero, claro, que isso não venha a acontecer, quanto mais não seja, graças ao permanente instinto de sobrevivência, pois esse não depende de nós, mas a esperança só não chega, pois eventualmente esgota-se, e é por isso que, sem a desejar, admito a hipótese de vir a cometer suicídio. Até porque é mais fácil aceitar a realidade para ela não nos surpreender. E afinal de contas, até nem é mais fácil contornar certas realidades e lidar com situações difíceis conhecendo-as, aceitando-as?
Pelos vistos, não...
Há mortes demasiadamente implantadas nos meus genes para que eu possa criar vida pra tapá-las. Chamem-lhe impotência, de que me serve negá-lo, se não me torno mais viril ao fazê-lo? Ou será que simplesmente não o consigo?
São coisas da vida, aliás, no que me toca, as coisas da vida. E quem diz coisas diz fiascos, diz desilusões, eu próprio o digo, mas sou o único. Não há lugar para mim. Estou eternamente desencaixado, e sei que devo retornar para a caixa antes que ma esmigalhem de uma vez por todas.
Quero vir-me a toda a hora, foder a lei que me fode, da Natureza e a do Estado, poder cagar sempre que me fartar da merda no meu interior. Quero abrir-me todo perante mim mesmo, deixar escoar todas as minhas virgindades, afundar-me nas belas pernas da Medusa, que anda por aí, por todo o lado, por fora, e por dentro; abrir-lhe de rompante aquele seu grosso clitóris, afogar-me nas suas húmidas erecções, preenchê-la em toda a sua profundidade, dar-lhe enfim o sémen efervescente e palpitante do meu pénis que não tenho, e aí sim, inevitavelmente, olhar-lhe nos olhos, petrificar, como todos os demais, depois de a ter feito gritar como nunca gritou antes, deixar na sua memória estes saudosos tempos de doloroso prazer, abandonar forçadamente tudo, sem no entanto me arrepender da essência desse tudo.
Sonhos semelhantes, enchia vinte mil páginas com eles; é deles que eu estou farto, quase tanto como da falta deles... mas enquanto existirem, existirei, deprimido, em cínica e obcecada letargia, lado a lado com o meu Ninguém.

Peter “Dead” Miguel

Isto tá-me a dar dores de cabeça... Vou ficar por aqui, porque não há razões para continuar, tal como não havia razão para começar, pois nada disto leva a nada, ou se leva, não se nota...