De 22 de Junho, esta procura de expôr com clareza alguns pensamentos e sensações face ao passado, e a algumas que são suas consequências. O que no fim denoto, é apenas fruto do aperceber-me da dificuldade em transpôr algumas coisas de uma forma completa, porque há sempre mais factores para além dos expostos, que frequentemente acabam por não ser os mais significativos, os mais vezes verdadeiros.
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Tenho tanta pena de as coisas se terem passado assim... Tinha-me bastado a descontracção de estar, de dizer sem pensar as coisas mais banais. De poder dizer sem pensar, sem o sangue que se apressa acelerado a não o consentir, a alertar a garganta seca para o ricochete sofrido, para a dissipação de pretensões de liberdade, a desilusão que deitaria por terra o pouco à-vontade que eu podia ter, e por fim a emitir o sinal silencioso de contornar a potencialidade com um destacado disfarce de ausência ou presença estereotipada. Tinha-me bastado que isto não fosse assim tão crasso, e tudo se sucederia, pois lembro-me de se suceder nas minhas melhores alturas (independentemente de nervos ou ansiedades menores e, essas sim, mais vulgares) principalmente antes de todo esse tempo. Falo de um passado apagado pela sua natureza, uma espécie de ponto morto algures por estradas de territórios aquém-infância.
Refiro isto ao de leve, sem aquela raiva escusada, apenas com uma noção de que o que disse é demasiado impreciso, ao tê-lo expresso como se fosse uma sensação forte, ou de um género mais conciso do que aquele que pretendo, coisa que não fiz mas que talvez tenha assim parecido, dado o português. Na verdade, o que pretendi foi de alguma forma transpôr estas primeiras incompletudes, com a simplicidade da frase enquanto preâmbulo, ou parte do mesmo. Dizer determinadas coisas, ainda que não suficientemente contextualizadas.
Mas hoje, já só o hoje me pode irritar. E acima de tudo, o ver a mentalidade dos outros em relação ao que vêem. Ao que pensam verem dos outros, ao que querem ver dos outros, ao que descartam ver dos outros. As pequenas diferenças e falsos pressupostos na avaliação social. Merda, queria conseguir dizer aquilo de que estou a falar. Mas tem a ver com a soma das pessoas que observo, quando observo. Tem a ver com ter ido hoje ali, e visto tudo desenrolar-se à minha frente uma vez mais, com a típica, num novo dia renovada, semi-tentativa de envolvência no sentido natural da palavra.
Não sei o que quero. Em tempos, o que pretenderia em alturas de contenção com uma minha conversa, teria sido o mero respeito de alguém, por um aglomerado de dizeres sobre os quais me permitiria sentir. Teria sido o reconhecimento mínimo de mim por mim, fomentado e legitimidado pelo reconhecimento implícito de quem me lesse ou ouvisse, que intimamente, por curtas aspirações, seria este ou aquele. Esse ligeiro impasse sentido dar-me-ia a força para continuar, conquanto acompanhado por um sentimento de fraqueza, de um misto de uma certa culpa pela própria vontade descrita, com a impotência para contornar as minhas assumpções menos agradáveis acerca de mim mesmo, e ainda que não latentes aquele momento, facilmente evocáveis pelo silêncio ou pela característica ora impessoal ora excessiva do próprio discurso.
Penso que, neste momento, já me perdi um pouco, já estou a divagar por ideias algo destacadas do sentimento e da história a ele ligada, ainda que não em tópico, sem dúvida que na sua efectiva explanação. Portanto, há que ter uma crescente cautela ao associar isto a verdades e a estados de alma.