Retalhos de pensar

Amostra de momentos essencialmente centrados no pensamento, sem enfoque no molde, descaracterizados, desprovidos portanto de pretensão artística no sentido mais literário da palavra. Vem assim permitir abranger um conjunto de notas/textos de um passado já distante, alguns dos quais eventualmente de algum interesse para alguma pessoa. Não se lhes cinge porém no seu pretexto de exposição, aberto à actualização por textos recentes cujo âmbito se insira de alguma forma no supracitado.

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Localização: Lisbon, Portugal

quarta-feira, setembro 20, 2006

Acerca da sociedade

Mais uma aproximação a parte do que observo e sinto na sociedade, pequeno mote à reflexão.

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Que é que eles sabem?

É tudo uma questão de clima, de uma tensão permanente. A forma de dirigir e interpretar é vista com naturalidade, e joga-se apenas para lá disso. Do lado de lá de um circo de barreira. Sem reflexão na norma, sem cérebro que não o hábito, o sentir prematuramente as presenças em redor, a interferência permanente enquanto possível almejando a definição clara dos objectivos, meios e características de cada um, do ponto de vista do rótulo e da possibilidade de interacção associada a esse rótulo.

Custa-me, ainda, assimilar a mentalidade deste todo social, tão prevalecente. E tal é-me ainda muita estranheza, quando nas alturas em que, vagueando por entre eles, me mergulho o suficiente, despreocupação e desenvoltura, reconheço nesta estrutura de percepções e caminhos sobre a qual eles assentam, uma grande naturalidade aliada, percebo que há estabelecimentos tão profundos desta mecânica do mundo que são como que premissas do ser, sobre as quais então existe a posterior construção, como que todo o pensamento e o conteúdo presente só pudessem ser válidos se apoiados nela. Custa-me rever-me, humano, nesta mixórdia de lassitude, susceptibilidade, extroversão da frase e postura tidas como método, tidas como a obrigatoriedade enquanto membros de um padrão de eventos assumidos ou perseguidos normais, tida como parte integrante de uma despreocupação com exigências que se formou constante.

Filosofias de estar na vida, diferenças, minimizadas pelo aborrecimento de jogo que se pode tornar a interjeição, vista de fora.

quinta-feira, setembro 14, 2006

aprendizagem

De 1 de Setembro, pensamentos simples acerca de como a natureza abstracta das aprendizagens e do raciocínio se opõe à realidade, ainda que possa tender para ela.

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A aprendizagem não deve ser vista como conceitos, mas como aprendizagem. Isto, claro, se tiver mesmo de ser vista. Idealmente deve apenas servir o propósito da sua aplicação e enquadramento ideais num mundo e mente enquanto funcionamentos.
Porém, o grande problema dos esoterismos é o serem, porquanto significativos e positivamente deconstruvistas da realidade associada ao processo de iniciação, filosofias. O problema das filosofias é o não serem a sua própria significação, mas apenas, como já referido, processos.

prenúncio de sínteses

De 29 de Agosto.

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São hoje mais estilhaço e menos totalidade, as filosofias que estou. Isto porque, ainda que num dia detentor de claridade e de leveza nas energias-ânimo, a insuficiência do dia-acontecimentos se manifesta gradual premeio de um descolar de lembrança, assim mais embebida e pastosa, e portanto menos folhetim-legibilidade. A consequência disto é o tornar-se moroso o verdadeiro expressar das ditas, que eu em frequência fui coleccionando intenção, tendo em mente uma noite destas. Fica para já expresso, em definição resoluta, o estar planeado esse vindouro, para que pelo menos se saiba o haver importância efectiva no deambular último, o haver variedade de traços no desenho mental afecto à apreensão de realidades interior e exteriores, o terem estado palpáveis várias aproximações à verdade, que, sob a sombra de uma noção temerosa do desperdício, lamento não ter agarrado escrita em certos enquantos.

o algo de novo

De 13 de Julho, uma reflexão sobre uma sensação de novidade, também remetida à memória e à sugestão de outros enquadramentos que não geralmente o actual, tendo nesse aspecto alguns pontos de contacto com a reflexão anterior a esta.

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Sei que não é enquanto me afogo na inércia nocturna que umas linhas de soslaio trarão algo de novo, tão pouco nas alturas de um certo burburinho do pensamento se manifestar por palavras exaltantes do curvílineo. Onde redescubro a novidade é em raros momentos do dia em si, quando a conjunção de alguma prolongada tendência à exposição concretizada, com a posterior permanência da emotividade e propensão à recriação mental (sucessão de imaginários promissores) bastante intactas, fomentadas até, é aí que me recordo da lassitude de outros tempos, ainda que simples. É quando mais me aproximo do estar livre, no sentido social e banal da palavra. É quando, efectivamente, o estou, por um enquanto não sobrecarregado de exigência, ainda que por vezes carregado, nada que preocupe o existente então à minha tona. E nesse momento que perdura espontâneo na total largueza do termo, a alma espreguiça-se larga e limpa a lágrima de tudo o que não açambarcou, de tudo o que não aprendeu e de tudo o que viu passar-lhe por cima, os braços atados. Limpa-a com um sorriso gestual, de acto e de criativo.
O algo de novo é o que afinal seria todos os momentos, numa recuperada versão, outrora memorizada, do funcionamento e da pessoa em pé, entre iguais.
E a dor que eu sempre senti, é a dor do apagamento de alma, do inconsciente saber-me, recordar-me de facto, contraposto à tantas vezes óbvia impossibilidade nervosa de ser.

o que não foi e o que, em redor, é

De 22 de Junho, esta procura de expôr com clareza alguns pensamentos e sensações face ao passado, e a algumas que são suas consequências. O que no fim denoto, é apenas fruto do aperceber-me da dificuldade em transpôr algumas coisas de uma forma completa, porque há sempre mais factores para além dos expostos, que frequentemente acabam por não ser os mais significativos, os mais vezes verdadeiros.

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Tenho tanta pena de as coisas se terem passado assim... Tinha-me bastado a descontracção de estar, de dizer sem pensar as coisas mais banais. De poder dizer sem pensar, sem o sangue que se apressa acelerado a não o consentir, a alertar a garganta seca para o ricochete sofrido, para a dissipação de pretensões de liberdade, a desilusão que deitaria por terra o pouco à-vontade que eu podia ter, e por fim a emitir o sinal silencioso de contornar a potencialidade com um destacado disfarce de ausência ou presença estereotipada. Tinha-me bastado que isto não fosse assim tão crasso, e tudo se sucederia, pois lembro-me de se suceder nas minhas melhores alturas (independentemente de nervos ou ansiedades menores e, essas sim, mais vulgares) principalmente antes de todo esse tempo. Falo de um passado apagado pela sua natureza, uma espécie de ponto morto algures por estradas de territórios aquém-infância.

Refiro isto ao de leve, sem aquela raiva escusada, apenas com uma noção de que o que disse é demasiado impreciso, ao tê-lo expresso como se fosse uma sensação forte, ou de um género mais conciso do que aquele que pretendo, coisa que não fiz mas que talvez tenha assim parecido, dado o português. Na verdade, o que pretendi foi de alguma forma transpôr estas primeiras incompletudes, com a simplicidade da frase enquanto preâmbulo, ou parte do mesmo. Dizer determinadas coisas, ainda que não suficientemente contextualizadas.

Mas hoje, já só o hoje me pode irritar. E acima de tudo, o ver a mentalidade dos outros em relação ao que vêem. Ao que pensam verem dos outros, ao que querem ver dos outros, ao que descartam ver dos outros. As pequenas diferenças e falsos pressupostos na avaliação social. Merda, queria conseguir dizer aquilo de que estou a falar. Mas tem a ver com a soma das pessoas que observo, quando observo. Tem a ver com ter ido hoje ali, e visto tudo desenrolar-se à minha frente uma vez mais, com a típica, num novo dia renovada, semi-tentativa de envolvência no sentido natural da palavra.

Não sei o que quero. Em tempos, o que pretenderia em alturas de contenção com uma minha conversa, teria sido o mero respeito de alguém, por um aglomerado de dizeres sobre os quais me permitiria sentir. Teria sido o reconhecimento mínimo de mim por mim, fomentado e legitimidado pelo reconhecimento implícito de quem me lesse ou ouvisse, que intimamente, por curtas aspirações, seria este ou aquele. Esse ligeiro impasse sentido dar-me-ia a força para continuar, conquanto acompanhado por um sentimento de fraqueza, de um misto de uma certa culpa pela própria vontade descrita, com a impotência para contornar as minhas assumpções menos agradáveis acerca de mim mesmo, e ainda que não latentes aquele momento, facilmente evocáveis pelo silêncio ou pela característica ora impessoal ora excessiva do próprio discurso.

Penso que, neste momento, já me perdi um pouco, já estou a divagar por ideias algo destacadas do sentimento e da história a ele ligada, ainda que não em tópico, sem dúvida que na sua efectiva explanação. Portanto, há que ter uma crescente cautela ao associar isto a verdades e a estados de alma.

Da última semana de Fevereiro, esta minha curta tentativa de uma réprise simplificada do tema das dificuldades na interacção.

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Sou assim; sim, a grande essência do problema é ao nível da interacção. As coisas que aqui tenho como certas e seguras, não o tenho as suas pares no campo do activo, e, o que é pior, tenho a tendência para me vedar à sua morosa e exigente inserção nos costumes do diário entre-pessoas. Tendência essa essencialmente dos nervos, numa primeira abordagem (e que, se não devidamente monitorizada pelo moderador indiferença introspectivamente auto-incutida numa espécie de intra-sopro, se transforma numa angústia de impotência face à auto-decepção, e por fim num stress multiplamente abrupto pela ameaça social daí derivada, embora este último ponto tenda a relaxar-se um pouco na maior parte das situações), ou, numa segunda, da efectiva fadiga expressiva a que a continuidade e geral intrasigência destas dificuldades me induz, senão mesmo aquela gerada pela falta de hábito que se manifesta particularmente confusa e susceptível após períodos de maior recato.