Retalhos de pensar

Amostra de momentos essencialmente centrados no pensamento, sem enfoque no molde, descaracterizados, desprovidos portanto de pretensão artística no sentido mais literário da palavra. Vem assim permitir abranger um conjunto de notas/textos de um passado já distante, alguns dos quais eventualmente de algum interesse para alguma pessoa. Não se lhes cinge porém no seu pretexto de exposição, aberto à actualização por textos recentes cujo âmbito se insira de alguma forma no supracitado.

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Localização: Lisbon, Portugal

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Ser humano

De 9 de Maio de 2001, alguns pensares respeitantes às características humanas, em esboços de argumentação e de teoretização (não mais que esboços, pouco mais que superficiais), visando aproximar melhor a forma pela qual se deveria reger o nosso espírito crítico face às avaliações que fazemos do externo, culminados em post scriptum com uma ressalva não muito a propósito nem de muito interesse, mas também não necessariamente desprovida de finalidade, pois acaba por ser um caso da relatividade de que falo acima.

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Não é o perdoar que nos torna humanos, mas sim o raciocínio, o cérebro algo mais complexo que o de um mosquito, bem como a capacidade que tais horizontes mentais nos proporciona de ter sentimentos extremamente mais subjectivos que os que a mamã natureza reservou ao mundo animal em geral, sentimentos esses que são verdadeiros estados de espírito.
A partir daí, os critérios de avaliação de pessoas são também puramente objectivos.
No entanto, os TEUS critérios e os MEUS critérios, que se diferenciam ao curso de uma série de experiências de vida, não são absolutos, só relativos, mas se pensarmos que nós próprios somos também relativos, esses critérios são relativos à nossa relatividade.
Mediante um determinado estágio da nossa evolução, podemos no maximo procurar entender até que ponto os critérios que estamos a utilizar relativamente a esse estágio são os ideais, os mais pensados, que melhor conseguem ter em atenção todos os variados aspectos de um determinado assunto que tentamos analisar. Isto multiplicado por todos os assuntos que analisamos instante a instante. Assim, para cada aspecto, se tivermos suficiente maturidade, conseguimos avaliar se estamos a aproveitar as nossas capacidades, nesse preciso momento, para esse preciso estágio da nossa evolução, bem, óptimo, mal, ou se nem sequer as estamos a utilizar.
Contudo, fora dessa escala instantânea, que só cada um de nós pode utilizar verdadeiramente, pois só cada um de nós sabe de si mesmo, não há possível comparação entre a validade das acções de cada um. Assim, é-nos também impossível conhecer a influência de algo por um prisma imparcial, ou melhor, exterior a nós próprios. Imparciais podemos sempre tentar ser, mas não gosto de o tentar fazer em excesso quando se trata da minha própria vida e decisões, pois penso que isso iria contra o meu próprio objectivo de vida: tentar aproveitá-la mediante os meus gostos mais uma série de condicionantes e expoentes que são irrelevantes para aqui,
portanto, NÃO podes dizer que perdoar é a atitude correcta, NEM podes dizer o contrário, com razão. Claro que o podes dizer generalizadamente... Mas aí estás a ignorar totalmente a tua capacidade de avaliação, pois esta não vive de provérbios ou religiões, mas sim de caso a caso, acontecimento a acontecimento, desgraça a desgraça, alegria a alegria.
Então a pergunta é: que atitude tomar perante tudo e todos?
Não há resposta. Tal como tu não podes controlar a tua própria evolução. Podes é tentar delimitá-la com certas atitudes, se no decurso dessa evolução o achares necessário e fores capaz disso.
O ódio contra os inimigos muitas vezes é consequência de não haver maneira de retomar o que já foi feito, e sentires que a perda para ti é tão grande que só mesmo esse ódio é que te pode verdadeiramente ajudar a recuperá-la. Não deves nunca tentar dizer o que está certo e errado em cenas como estas antes de tu mesmo as teres vivido, não é nada que te diga respeito pura e simplesmente. Podes tomar partidos, claro, mas por razões diversas, e para teu bem, nunca por pseudo-morais de meia-tigela que só servem para te atrofiar o uso pleno das tuas capacidades humanas que eu tenho referido.
Espero que compreendas que a sociedade não é de ninguém. Só tu é que és teu, tenta viver em função disso, e defender essa tua única, mas verdadeira, propriedade imaterial. A coisa mais valiosa que tu tens é efémera, mas não tens alternativas. Tudo o que fazes é de facto vão a partir do momento em que morres, mas enquanto vives, só é em vão visto de uma perspectiva atemporal e universal, não é em vão visto da tua perspectiva, pois estás vivo à força, por isso algo tens de sentir, sofrer, perceber, fazer, quer queiras quer não.

Peter "Sorry" Miguel

P.s.: Tudo o que está para cima, não tem de ser como eu penso no dia-a-dia, é só um pedaço do que eu penso ou posso pensar nesta fase interior, mas pressinto que é um pedaço com umas coisas ou outras que repetidamente me tem preenchido a vida. Limitei-me a aprender o que algumas dessas coisas significavam na minha linguagem interior, e tentei transpôr para o português, que embora língua de uma grande pátria, ainda tem muitas limitações na fronteira com a metafísica, que todos sabemos que existe, que todos atravessamos, mas que todos desconhecemos. C'est la vie.

E a morte que não vem...

De 3 de Maio de 2001, esta semi-formalização dos sentimentos do Fatalista e do Pária que me são inerentes.

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A consciência de si mesmo é independente das condições externas: embora possa advir delas, não as influencia. Sim senhor, eu consigo ver a vida pelos meus olhos, é certo que conheço muitos limites, e sei que o infinito do meu mundo se torna finito com o meu próprio fim, mais precisamente, torna-se nulo.
Eu penso conseguir pensar nas coisas que me irão desligar o pensamento e adivinhar aproximadamente a minha mediocricidade que lhes está adjacente. Lógico que, seguindo a mais simples e linear ligação de pensamentos, isso me faz concluir que devo viver, enquanto sobrevivente.
Tudo isto é-me mais que claro e a simplicidade destes factos já me levou a tentar consumá-los, já me tornou sedento de viver perante o estado vegetal anterior à minha auto-consciencialização, procurar passar da inércia à natural e irreflectida actividade! Contudo, é-me invariavelmente obstruída a passagem: quanto mais tento, mais falho, e, consequentemente, mais me falta a vontade de ultrapassar as barreiras para curtir ao máximo a descida pelo grande, fatal Abismo existencial.
E o pior é que quanto mais me falta a vontade, mais me reconheço perdido, mais que sou a própria catábase, psicologicamente (e apenas isso) personificada. E quanto mais desço, mais urge a necessidade de viver, e menor é a capacidade de o fazer.
Fixe... sei quem sou, e também o que sou: matéria a apodrecer, prestes a desfazer-se e a levar-me com ela, para o vazio, que não é nem longe, nem perto; sei que não vou fazer jamais aquilo que infelizmente não faço estes dias, e sei que, quando até a minha presença se evaporar, eu nem isto saberei. Nada mau, saber aquilo que a Igreja não sabe... deter o conhecimento de que milhões e milhões de fiéis laquejam, iludindo-se... E daí?? Quem me dera acreditar, quem me dera voltar a ser cristão, arrancar a noção da morte que há em mim da minha mente, tendo-a simplesmente reservada para o final. Não porque me alegre especialmente concordar, e, pior ainda, obedecer cegamente a um deus fictício, somente para anestesiar a dor de o saber, e de saber que de nada me serve sabê-lo.
Invejo ainda especialmente aqueles que o sabem e que conseguem viver em função de o saber, os autênticos epicuristas, que me parecem também bastante fictícios quando os comparo à minha fraca e débil realidade.
Como me falta toda essa postura, e como sei demais para ser cristão, sobra-me arranjar alguma coisa com que me entreter, vendo tudo a passar e sabendo que cada segundo que passa é como que um quilo a menos na minha alma para fazer a diferença do vácuo total e absoluto, sem razão, sentimento, ou nem mesmo sono consolador.
Plenamente de acordo com as críticas que um campónio possa dirigir ao rico e estático cidadão, assumo-me como estou: pré-digerido e doente, muito doente, febril e irremediavelmente doente. Mais ainda, em alturas de introspecção, atormentam-me os restos de vivência convulsivos no meu raquítico estômago, sem alimento desde que, ao crescer, esmaguei as débeis ilusões que a própria infância, impossível de ser contentada, me proporcionava. Enquanto criança, não acreditando no Pai Natal, fingia que sim, e recebia sempre prendas. Os sonhos eram todo o meu eu, e bastavam, pois que somos nós ao princípio, senão sonhos? Só que agora tenho sonhos por demais concretos para que me satisfaçam, e morro de fome, e apetece-me morrer de outras coisas que não de fome.
É por isso que eu admito, em último caso, a planeada fuga desta tormenta. Espero, claro, que isso não venha a acontecer, quanto mais não seja, graças ao permanente instinto de sobrevivência, pois esse não depende de nós, mas a esperança só não chega, pois eventualmente esgota-se, e é por isso que, sem a desejar, admito a hipótese de vir a cometer suicídio. Até porque é mais fácil aceitar a realidade para ela não nos surpreender. E afinal de contas, até nem é mais fácil contornar certas realidades e lidar com situações difíceis conhecendo-as, aceitando-as?
Pelos vistos, não...
Há mortes demasiadamente implantadas nos meus genes para que eu possa criar vida pra tapá-las. Chamem-lhe impotência, de que me serve negá-lo, se não me torno mais viril ao fazê-lo? Ou será que simplesmente não o consigo?
São coisas da vida, aliás, no que me toca, as coisas da vida. E quem diz coisas diz fiascos, diz desilusões, eu próprio o digo, mas sou o único. Não há lugar para mim. Estou eternamente desencaixado, e sei que devo retornar para a caixa antes que ma esmigalhem de uma vez por todas.
Quero vir-me a toda a hora, foder a lei que me fode, da Natureza e a do Estado, poder cagar sempre que me fartar da merda no meu interior. Quero abrir-me todo perante mim mesmo, deixar escoar todas as minhas virgindades, afundar-me nas belas pernas da Medusa, que anda por aí, por todo o lado, por fora, e por dentro; abrir-lhe de rompante aquele seu grosso clitóris, afogar-me nas suas húmidas erecções, preenchê-la em toda a sua profundidade, dar-lhe enfim o sémen efervescente e palpitante do meu pénis que não tenho, e aí sim, inevitavelmente, olhar-lhe nos olhos, petrificar, como todos os demais, depois de a ter feito gritar como nunca gritou antes, deixar na sua memória estes saudosos tempos de doloroso prazer, abandonar forçadamente tudo, sem no entanto me arrepender da essência desse tudo.
Sonhos semelhantes, enchia vinte mil páginas com eles; é deles que eu estou farto, quase tanto como da falta deles... mas enquanto existirem, existirei, deprimido, em cínica e obcecada letargia, lado a lado com o meu Ninguém.

Peter “Dead” Miguel

Isto tá-me a dar dores de cabeça... Vou ficar por aqui, porque não há razões para continuar, tal como não havia razão para começar, pois nada disto leva a nada, ou se leva, não se nota...

Seja o amor uma doença...

De 9 de Julho de 2000, este texto pretende ser lúdico. Em verdade, foi escrito a pedido de um colega alemão para o seu TPC a Português (língua estrangeira), como um comentário à temática do amor (não me recordo melhor do contexto). Aproveitei para explorar o elemento do surreal, introduzindo-o pelo contraste óbvio dos conhecimentos limitados de português do meu colega com a retórica que usei, e também pela consciente e auto-imposta leviandade com que estabelecia certas proposições, entre outras coisas... A sua professora ficou bastante atabalhoada, acrescente-se.

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Pois é... poderemos considerar o amor, uma universalmente reconhecida grande forma de expressão sentimental e por vezes artística (como se nota nos livros de Miguel Esteves Cardoso ou em algumas telenovelas mexicanas), uma peste, algo de horroroso, como qualquer vicissitude obscena?
A minha opinião diz que é somente neste aspecto que podemos transpôr o estado de espírito que é o amor para a deficiência geralmente física que é a doença, mesmo quando causada por perturbações mentais. Ou seja, o amor pode ser a causa de uma doença, na medida em que causa uma alteração de comportamento constante, não permitindo ao apaixonado libertar-se desta, até quando tudo lhe corre pelo pior. Sim porque raros não são os casos em que a namorada de alguém abandona o dito cujo para estar livre para outrém, ou simplesmente por estar farta do primeiro. É um bocado como o Maradona no futebol... passa a vida a abandonar os seus clubes, mas acaba sempre por confessar um arrependimento profundo e uma intensa vontade de cometer suícidio! Não passa sem o jogo da bola...
Ora bem, assim o amor, seja ele uma doença, é portanto uma droga, que de jogo não tem nada. Ao contrário das outras drogas, dá-se totalmente no interior da vítima, não é necessário meter pra veia ou ingerir pílulas ou assim. Nada disso, porque o amor é inteiramente psicológico, e tal como vem é passível de abandonar a nossa alma, mas díficilmente a deixa límpida, isenta de marcas. O amor, seja ele uma doença, é temido por todos mas ninguém tem coragem de o admitir, talvez porém não o seja para alguns e esses alguns consigam isolar-se completamente do sexo oposto a nível psicológico, mostrando assim que é uma doença muito relativa, variando a nível de efeitos de pessoa para pessoa.
Independentemente de isto se verificar na realidade ou não, gostava de deixar bem latente, que aquilo que sentimos por uma pessoa de quem gostamos é inegável e há que dar crédito a essa pessoa por nos conseguir cativar, nem que seja despertar somente a atenção, porque isso já nos vem mostrar que essa pessoa é positiva para nós.
E é por isso que eu não acredito que o amor seja aquilo que eu estive a explicar que pode ser, claro que isto não se aplica a toda a gente, há personalidades mais frágeis ou mais carentes, por exemplo, que não conseguem dispensar o amor. Exemplo: Freud / Macgyver. Apesar disso para mim, o amor não é uma vicissitude prejudicial, mas também não é obrigatoriamente uma coisa bonita de se ver, isto é assim, pá o amor é pra ser vivido acima de tudo e se eu não amar o amor pelo menos enquanto amando, não se trata de amor verdadeiro, trata-se de uma farsa, ou até mesmo uma simples excitação sexual.
Sim, e isto porque o amor tem dois campos o concreto, e o abstracto que se passa no nosso cérebro. Qual deles mais promíscuo, díficil de dizer... Mas que o mais intenso é o psicológico é óbvio só que há pessoas que nem fazem por o descobrir. Pobres almas. Desconhecem os prazeres da vida. O amor concreto, esse sim é uma droga como as outras, já que se trata de satisfazer um desejo vil e concreto, o sexo, ou o coito. É no abstracto que tudo se complica, como eu atrás referi e com orgulho. E não sendo virgem!